O PERIGO DE LUTAR EM TODAS AS FRENTES AO MESMO TEMPO
Por Carlos Chagas João Goulart foi deposto por açodamento: quis fazer todas as reformas de base ao mesmo tempo. Despertou contra ele a oposição de sucessivos segmentos sociais, culminando quando deu apoio à quebra da hierarquia militar. Ao pregar a reforma agrária, levantou a poderosa categoria dos donos da terra. “Armai-vos uns aos outros” foi lema rotineiro na época. Com a reforma social, tentando ampliar direitos trabalhistas, teve contra ele o empresariado, também apavorado com a perspectiva de mais impostos e limitação de suas prerrogativas, sem falar na participação dos empregados no lucro das empresas. Jango perdeu a classe média ao estimular greves e paralisações nos meios operários, entregando o setor sindical aos comunistas. Assustou as multinacionais com nova lei restritiva da remessa de lucros para o exterior. Desapropriou refinarias e empresas prestadoras de serviços públicos, nacionais e estrangeiras. Quis interromper a farra dos bancos com a criação de mais entraves nas operações financeiras. Perdeu o Congresso, majoritariamente conservador, ao prestigiar setores da extrema esquerda. Sua reforma do ensino previa o estrangulamento das escolas e universidades privadas, enquanto na saúde, enfrentou os laboratórios estrangeiros criando um sucedâneo estatal, produtor de remédios a baixo custo. Não esqueceu a reforma urbana para limitar o preço crescente dos aluguéis e impedir que casas e apartamentos ficassem vazios em prol da especulação imobiliária. Na política externa, manteve abertas as portas para o Terceiro Mundo. Foi embora o que lhe restava de apoio quando respaldou associações de sargentos até então impedidos de candidatar-se a postos eletivos caso não se demitissem das forças armadas. Ao anistiar marinheiros e fuzileiros navais rebelados, estava no chão, de nada adiantando o anunciado programa de comícios em praça pública para fazer, por decreto, o que o Congresso não fazia por lei, ou seja, as reformas de base. Ficou no primeiro comício, na Central do Brasil, no Rio, defronte ao ministério da Guerra, senão por provocação, ao menos por ingenuidade. Caiu, vale repetir, por açodamento, por despertar de uma só vez a oposição da maior parte das forças nacionais. Por que se recorda esse capítulo fascinante e ainda inconcluso da história do país? Porque a presidente Dilma, agora assumindo sua candidatura à reeleição, precisa meditar se não está regendo a mesma partitura, ainda que em decibéis por enquanto mais baixos. Apesar das aparências, contra ela está o sistema financeiro, com os bancos engolindo sem digerir a súbita queda dos juros e a supressão de uma série de vantagens que levavam sobre os depositantes e sobre a economia nacional. O empresariado é prestigiado por ela quando se trata de pedir sugestões até agora não atendidas, ou muito pouco, como o anunciado desafogo nas folhas de pagamento das empresas. As restrições ao crédito, promovidas pelo sistema bancário, são debitadas a ela, ou à sua equipe econômica,
Por Carlos Chagas João Goulart foi deposto por açodamento: quis fazer todas as reformas de base ao mesmo tempo. Despertou contra ele a oposição de sucessivos segmentos sociais, culminando quando deu apoio à quebra da hierarquia militar. Ao pregar a reforma agrária, levantou a poderosa categoria dos donos da terra. “Armai-vos uns aos outros” foi lema rotineiro na época. Com a reforma social, tentando ampliar direitos trabalhistas, teve contra ele o empresariado, também apavorado com a perspectiva de mais impostos e limitação de suas prerrogativas, sem falar na participação dos empregados no lucro das empresas. Jango perdeu a classe média ao estimular greves e paralisações nos meios operários, entregando o setor sindical aos comunistas. Assustou as multinacionais com nova lei restritiva da remessa de lucros para o exterior. Desapropriou refinarias e empresas prestadoras de serviços públicos, nacionais e estrangeiras. Quis interromper a farra dos bancos com a criação de mais entraves nas operações financeiras. Perdeu o Congresso, majoritariamente conservador, ao prestigiar setores da extrema esquerda. Sua reforma do ensino previa o estrangulamento das escolas e universidades privadas, enquanto na saúde, enfrentou os laboratórios estrangeiros criando um sucedâneo estatal, produtor de remédios a baixo custo. Não esqueceu a reforma urbana para limitar o preço crescente dos aluguéis e impedir que casas e apartamentos ficassem vazios em prol da especulação imobiliária. Na política externa, manteve abertas as portas para o Terceiro Mundo. Foi embora o que lhe restava de apoio quando respaldou associações de sargentos até então impedidos de candidatar-se a postos eletivos caso não se demitissem das forças armadas. Ao anistiar marinheiros e fuzileiros navais rebelados, estava no chão, de nada adiantando o anunciado programa de comícios em praça pública para fazer, por decreto, o que o Congresso não fazia por lei, ou seja, as reformas de base. Ficou no primeiro comício, na Central do Brasil, no Rio, defronte ao ministério da Guerra, senão por provocação, ao menos por ingenuidade. Caiu, vale repetir, por açodamento, por despertar de uma só vez a oposição da maior parte das forças nacionais. Por que se recorda esse capítulo fascinante e ainda inconcluso da história do país? Porque a presidente Dilma, agora assumindo sua candidatura à reeleição, precisa meditar se não está regendo a mesma partitura, ainda que em decibéis por enquanto mais baixos. Apesar das aparências, contra ela está o sistema financeiro, com os bancos engolindo sem digerir a súbita queda dos juros e a supressão de uma série de vantagens que levavam sobre os depositantes e sobre a economia nacional. O empresariado é prestigiado por ela quando se trata de pedir sugestões até agora não atendidas, ou muito pouco, como o anunciado desafogo nas folhas de pagamento das empresas. As restrições ao crédito, promovidas pelo sistema bancário, são debitadas a ela, ou à sua equipe econômica,





