
Política
José Serra, somente en passant
Fábio Campos
fabiocampos@opovo.com.br
19/08/2010 02:00
A política é pragmática. As campanhas eleitorais são duas vezes mais pragmáticas. Ontem, os candidatos ao Governo do Ceará e ao Senado abriram seus palanques eletrônicos com os programas de rádio e televisão. Nos programas de Marcos Cals e Tasso Jereissati, o candidato do PSDB à Presidência da República, José Serra, não deu o ar de sua graça. Nem sequer foi citado. Nenhuma imagem. No site dos dois candidatos cearenses, há apenas um link para o site de Serra. Nada mais. São os efeitos das pesquisas. Do outro lado, os candidatos a senador (Pimentel e Eunício) e a governador (Cid Gomes) bebem com sofreguidão na fonte de Lula. É como se Lula fosse o candidato a presidente. Porém, Dilma nunca é esquecida. Nos sites na internet, aparecem as fotos de todos em bloco. Lula, Dilma e Ciro juntos dos três candidatos locais. Nas ruas, Cid e os seus dois companheiros iniciam a conversa com os eleitores se apresentando como candidatos de Lula. Na sequência, pedem votos para eles e para Dilma. Nos sites tucanos, as fotos em bloco resumem-se aos candidatos locais: Tasso, Marcos Cals e Pedro Fiúza, o vice. Nas ruas e palanques, Serra, quando citado, a menção é tímida, en passant, quase envergonhada.
ATÉ ALCKMIN ESCONDE SERRA
O que os tucanos do Ceará dedicam a Serra não se reproduz apenas entre nós. Em Minas Gerais, a preocupação de Aécio Neves (PSDB) é local. O ex-governador faz uma campanha, digamos, mineira. Em política, Minas se comporta como um país separado do resto. Em São Paulo, estado que até um dia desses era governador por Serra, o problema se repete. Vejam: “Os candidatos ao governo de São Paulo abriram nesta quarta-feira, 18, o horário eleitoral na TV. Enquanto Mercadante procurou trazer Lula para seu programa, Alckmin escondeu Serra. Marina Silva apareceu no programa de Fábio Feldmann (PV). Em seu primeiro programa, o candidato do PSDB ao governo de SP escondeu o candidato tucano à Presidência, José Serra. O nome do presidenciável só foi citado 3 vezes: uma vez na boca do próprio Alckmin, outra no testemunho de um personagem e ainda uma vez na voz do narrador. Alckmin também não mencionou que participou do secretariado de Serra no governo de SP. Do lado petista, Mercadante destacou bem o nome do governo Lula, citando várias vezes, e e pegou carona em suas realizações, como os 13 milhões de empregos criados durante os últimos oito anos. Ao final, o próprio Lula apareceu no programa” (Jair Stangler, do Estadão).
SEM CLIMA DE MUDANÇA
Durante muito tempo, a Coluna duvidou de que Serra deixaria o Governo de São Paulo para disputar a eleição presidencial. Gente como o deputado federal Ciro Gomes nutria a mesma leitura. São Paulo é dono de quase a metade da economia do Brasil. A força política e a força econômica se encontram majoritariamente por lá. Serra era o governador e ainda tinha o direito de se candidatar à reeleição. Abriu mão de tudo isso para enfrentar uma eleição que, no fim das contas, seria contra Lula, o presidente mais popular da história do País. Havia uma claro clima de continuidade no ar. Para os padrões brasileiros, a economia ia muito bem e a oposição, de há muito, não tinha um discurso eficiente para enfrentar a caravana lulista. Sendo assim, era a hora dos tucanos entrarem nessa disputa com uma aposta para o futuro. Era a hora de trabalhar “o novo”. Serra não encarnava nada de novo. Longe disso. Serra, que já havia desperdiçado a sua oportunidade em 2002, não empolga os eleitores, cuja maioria, nesse momento, nem está disponível para se deixar empolgar.
É CADA UM POR SI
Do jeito que caminha o processo eleitoral, José Serra será dolorosamente esvaziado por seus próprios correligionários. Terá que sustentar sua campanha em cima do palanque eletrônico da TV. Na ponta, junto aos eleitores, não há tucanos disponíveis para carregá-lo nas costas. Nos estados, os tucanos têm suas próprias preocupações. Eles estão mergulhados nos embates eleitorais e estão colocando suas trajetórias e mandatos em jogo. Até certo ponto, Serra passa a ser um estorvo. Entre nós, procura-se com uma lupa pelo menos um adesivo de Serra. Uma bandeirola. Um adereço, que seja. Não há. Curiosamente, contra Dilma, ocorre aqui o mesmo que se deu com Serra em 2002. Naquela disputa, não havia uma só força política no Ceará fazendo campanha para o candidato tucano. Nem Tasso, que havia optado por Ciro Gomes. Agora, Tasso tende a se dedicar a si mesmo. É o pragmatismo político definindo o rumo dos acontecimentos.
ESCLARECIMENTO: A manchete acima não é do articulista e sim deste blog.